segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A VIDA DE BOB DEAN - Fragmento III


As mãos suam, nos ouvidos um fone sem fio toca rock quase no volume máximo. São 3h da manhã e Bob mata a última xícara de café da garrafa. Há muita ansiedade no ar e o nervosismo precisa ser controlado. Nada pode ser esquecido e a pontualidade é o primeiro passo para que nada dê errado. 

Desde pequeno ele se interessou mais pelos bits do que pelos brinquedos convencionais. Na faculdade, desenvolveu um programa capaz de bisbilhotar todos os computadores do laboratório. Nas aulas de programação, enquanto o professor dissecava a lógica binária, que é a base de todo cálculo computacional, Bob aprimorava seu próprio sistema invasor/espião na intranet.

A disseminação da internet o fez expandir seus conhecimentos ainda mais rapidamente. Encontrou os fóruns virtuais, compartilhava informações com vários desconhecidos reais, mas isso após horas ou dias de conversas e pequenos “testes” que sempre faziam um com o outro a fim de comprovar o conhecimento. Não demorou muito para Bob canalizar suas habilidades para o seu idealismo. Não entendia o porquê do mundo servir apenas para manter a maioria sob controle por uma minoria. Revoltava-se com o contraste entre a quantidade de dinheiro arrecadado em impostos e a miséria em que viviam várias pessoas. Certa vez passava em frente a um dos maiores hospitais públicos da sua cidade, quando pela porta, viu diversas pessoas deitadas em macas pelo corredor. Decidiu entrar e a cena, para ele, assemelhava-se a campos de refugiados em uma guerra. Bob olhava as pessoas e seu coração apertava. Um senhor, bastante fragilizado, tentou segurar a mão de Bob. “Pois não, o que precisa?” Perguntou, sentindo um aperto no peito. Com muita dificuldade, aquele senhor tirou um pequeno papel do seu bolso e entregou a Bob. Logo após, os braços perderam a frágil firmeza, os olhos fecharam e Bob, aos gritos, pedia que algum médico ou enfermeiro o socorresse. Mas era tarde. Muito abatido, ele voltou para seu apartamento, sentou-se no chão próximo a porta e com o pequeno papel que recebera em mãos, chorou copiosamente após lê-lo: “Não tenho casa, nem família. Meus amigos se foram. Meus dias também. Gostaria de me sentir feliz. Pouco importa. Se puder, guarde meu nome e faça algo importante com ele. Eu não consegui fazer. Oliver Kann”


A pouco conhecida Deep Web era o lugar onde Bob navegava pelas madrugadas, muito das vezes passava finais de semanas inteiros trancado no seu apartamento. Como estradas sem placas e cidadãos sem RG, a Deep Web é um espaço virtual muito conhecido entre os amantes de computadores e o grupo ao qual pertencia, apesar de ser considerado famoso por lá, todos sabiam que ser aceito entre eles não era algo fácil. Juntos compartilhavam conhecimento, estudavam vulnerabilidades em redes e executavam ataques virtuais frequentemente a fim de expressarem seu descontentamento contra o sistema político atual. Assim, a mais complexa e importante invasão estava prestes a acontecer. Fontes confiáveis os informaram que nos servidores do Ministério Público Federal haviam arquivos que poderiam derrubar o Governo. Um gigantesco esquema de corrupção controlado pelo Poder Executivo com total participação de todos os demais poderes, incluindo o Judiciário. Há cinco anos o grupo de Bob analisava todas as informações técnicas que recebiam e realizavam inúmeros testes. Paralelamente, o antigo programa de invasão de computadores da faculdade, ficava robusto, complexo e eficiente. E, com as informações que chegara no último mês, era preciso acelerar o cronograma, antes que os arquivos fossem apagados definitivamente dos servidores.

Às 3h23, a operação “O.K.” (codinome dado por Bob) iniciou e, apesar do grupo central ter poucas pessoas, haviam vários milhares de voluntários desenvolvendo papéis secundários, mas fundamentais. Numa operação desse porte, era extremamente necessário que todos agissem harmoniosamente e com, extrema segurança, a fim de não serem detectados pelos sistemas de proteção e nem pela Agência de Inteligência Nacional. Se tudo desse certo, ao final toda a documentação adquirida seria transferida para hd´s criptografados e os principais articuladores deveriam realizar rigorosamente todos os procedimentos combinados. Uma vez que o Governo soubesse que tais arquivos caíra em outras mãos, eles não mediriam esforços e nem dinheiro a fim de identificar os invasores e captura-los. Afinal, a democracia correria um sério risco e todos no Governo sabiam, exatamente, o que significaria isso. 

Às 8h da manhã, Bob já se encontrava no Aeroporto Internacional e na bagagem de mão duas cases com hd´s criptografados.

(Novos Fragmentos em breve)

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