segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A VIDA DE BOB DEAN - fragmento I


Fragmento I
O dia começou como um dia qualquer. O sol aparecendo timidamente entre as cortinas e o despertador tocando uma das músicas que Bob detesta. Segundo ele, este é o segredo para que a vontade de desligar o aparelho supere a vontade de permanecer por mais algum tempo na cama. Deixar o telefone longe da cama e com o volume alto é outra estratégia dele, apesar de já ter desistido dessa idéia. Isso porque um dia ele deixou o celular dentro do box do banheiro, acreditando que a acústica produzida naquele cômodo, o levaria rapidamente para debaixo do chuveiro quando fosse desligar o despertador. Essa é uma daquelas idéias criadas de madrugada, quase ao amanhecer, quando a consciência pesa por ter passado tanto tempo fazendo qualquer outra coisa que não fosse dormir. Quando o celular mostrou 05:00h, parecia que a banda que tocava aquele som dos infernos estava dentro dos ouvidos dele. Bob saltou da cama sem nada entender, ainda enrolado nos lençóis. Passou os dedos nos olhos, mexeu a cabeça para os lados e bocejou gabando-se do sucesso de sua criação. Decidiu ir ao banheiro, mas esqueceu de tirar os lençóis que agora, prendiam seus pés. Bob caiu levando uma parte da cortina que ainda escondia a noite lá fora. Irritado, jogou cortina e lençóis no chão e entrou tão acelerado no banheiro que esqueceu de abrir a porta do box. A pancada foi tão violenta, que o levou de volta a cama, onde permaneceu por alguns minutos enquanto o celular dava um tempo, para insistir logo em seguida. Após a dor diminuir, Bob chegou a conclusão que aquela idéia tinha sido tão boa quanto a vez que confundiu Hipoglós com pasta de dente. Desse dia em diante, o celular despertava sempre ao lado da cama.

A manhã é fria e o sol surge apenas como uma luz, deixando escapar uma preguiça, como se o despertar fosse uma suave canção embalando sentimentos que apenas as manhãs de inverno inspiram. A neblina começa a se dissipar e o orvalho inicia seu processo de reversão. Quem sabe, a gigantesca estrela fervente saiba que exista outros lugares mais seguros que o nosso, onde seus habitantes protegem, inteligentemente, o planeta que vivem. Ou possuem uma tecnologia tão avançada que conseguiram transformar suas ondas de calor em combustível para suas aeronaves viajarem pelo Universo em busca de outras civilizações. Talvez o Sol tenha mais certezas que a gente por aqui, ou talvez tenha plena consciência de que ele é apenas mais um no infinito universo e que seu tamanho e calor são apenas questões relativas. Relatividade esta, explicada tão bem por um gênio humano que ele mesmo conheceu há anos atrás. Aliás, a genialidade parece ter ficado perdida em passados distantes e parece-me que vivemos apenas para recordar o quanto se analisavam e debatiam questões da essência humana, ou o quanto o ser humano poderia ser melhor compreendido se ele fosse mais ouvido. Mas os pensamentos que inquietam Bob são outros. Ele está longe de tentar criar qualquer teoria sobre o comportamento humano ou sobre as leis da física. O seu mundo pode até, relativamente, parecer pequeno; mas só ele consegue chegar o mais próximo de mensurar o seu equilíbrio ou as tentativas de encontra-lo. No entanto, Bob procura afastar da sua mente toda a aritmética que o sugere chegar a qualquer possível valor aproximado. Entender a si próprio talvez seja mais um dos vários desafios que ele não conseguirá cumprir, e assumir tal impossibilidade o fez enxergar a vida diferente. Nem tudo precisa ser compreendido para ser vivido. Nem tudo que é compreendido é bom. E nem tudo que é bom precisa ser vivido. Bob quer apenas viver sua história, escrevendo-a com a própria cabeça e pés. Quer questionar ainda que não entenda o por que de querer uma resposta. Quer conseguir respostas, ainda que elas sejam apenas parte de uma solução, de algum problema desconhecido.

Ele se encara no espelho embaçado do banheiro, mas entende perfeitamente que a relatividade do tempo está no sentimento que o envolve. O sol, lá fora, aquece mais do que a minutos atrás. Olhar para a cama já causa um desânimo ao imaginar o trabalho de arrumá-la; e ao abrir a janela, a brisa ainda fria, penetra o quarto e seus poros; e descortina um céu azul, onde a junção de todos seus elementos, em microssegundos, te leva a convicção de que o dia será o melhor dia que poderia existir para se viver. Como uma injeção de prótons na alma, que desfaz os pensamentos que incidem sobre os problemas e te revela um mundo de possibilidades e soluções.

Seu olhar perdido entre as árvores que desenham a paisagem que vê, limpa sua mente, hidrata seu coração e o leva à um momento de felicidade e paz. O transporta no tempo, em épocas de risadas fáceis, de amores ingênuos e de segredos afrodisíacos que o deram a certeza de que tudo pode ser belo e perfeito em alguns momentos, mas se estes momentos não forem sentidos profundamente; amanhã haverá apenas as cicatrizes dos dias maus. Afinal, aprendemos desde pequenos que os momentos ruins são vividos, ainda que não queiramos, na plenitude dos sentidos. Sentimentos como os gerados por aquela fusão de árvores, brisa fria, sol e céu azul precisam de tempo para penetrar em cada gota de sangue, navegar por cada centímetro do corpo, até atingir o ponto G da alma. Bob não tem pressa... Em alguns minutos aquela fusão se dissolverá e uma nova metamorfose gerará novos sentimentos, talvez nem tão perfeitos.
(Em breve novos Fragmentos)

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