domingo, 20 de março de 2011

Elton John: Entrevista Rolling Stone


Vestido com um paletó preto folgado, chinelos de oncinha com detalhes dourados e óculos de lentes amareladas, Elton John me convida para entrar em seu apartamento de Los Angeles e me apresenta a família: David Furnish, seu parceiro há 17 anos, vestido com um roupão de banho às 10 da manhã, e seus dois cocker spaniels, Marilyn e Arthur. Encolhido em um carrinho está o novo membro, o filhinho deles, Zachary Jackson Levon Furnish-John, que tinha chegado apenas nove dias antes, por meio de uma barriga de aluguel, no Natal. "Ele disparou para fora", diz Elton, olhando para o filho com ar de adoração. "Parecia uma cena de O Sentido da Vida, de Monty Python. O obstetra teve que segurar." Segundo ele, tornar-se pai foi "a sensação mais incrível". Elton, que geralmente é bem impressionável, orgulha-se de ter cortado o cordão umbilical: "Parece uma lula!"

Elton tem este imóvel em West Hollywood há três anos. As paredes estão cobertas com arte contemporânea e fotos icônicas. "Não há nada que eu colecione com mais paixão do que fotografia", diz ele, que também junta peças de porcelana e vidro e argolas de guardanapo. Em sua principal residência nos Estados Unidos, em Atlanta, demoraria horas para dar uma olhada em suas coleções. Elton também tem propriedades no sul da França, em Londres e em Veneza - e 14 hectares de terras em Old Windsor, na Inglaterra.

Passando a pilha de 1,5 metro de altura de presentes de bebê, o apartamento se abre em uma ampla ala de estar. Não há poluição no ar de Los Angeles nesta manhã, e a janela virada para o leste oferece vista límpida para o pico nevado do Mount Baldy, a quase 100 quilômetros de distância. Elton aponta para o Sunset Boulevard, para um anúncio gigantesco da animação Gnomeu e Julieta, que ele e Furnish produziram. O filme estreia este mês no Brasil e sua trilha é recheada de canções de John. Perto dali, mais para o sul, fica o clube Troubadour, onde o músico fez duas apresentações lendárias em 1970 e deu início à sua carreira nos Estados Unidos, causando grande sensação. "Eu nunca passo por aquele lugar sem pensar nisso", diz. Ao longo dos últimos 40 anos - com 35 álbuns de estúdio e incontáveis singles, colaborações e compilações de sucessos -, Elton John vendeu mais de 250 milhões de álbuns, inserindo-se assim na lista dos dez artistas que mais venderam na história.

Em sua segunda noite no Troubadour, ele olhou do palco e viu seu herói, o pianista Leon Russell, no meio do público. "Leon era o cara", diz. "Eu tive muitas influências no piano: Allen Toussaint, Ian Stewart, Booker T., Little Richard, Fats Domino, Garth Hudson, Jimmy Smith, Jerry Lee Lewis... Mas eu queria ser Leon. Ele tinha tocado em tudo que eu adorava: Delaney and Bonnie, todos os discos de Phil Spector, gravações com Frank Sinatra e a Wrecking Crew. Ele passava aquele clima country, mas com rockabilly e gospel e soul, tudo misturado." Russell, em seu auge comercial, levou Elton para fazer turnê com ele no início da década de 1970. Mas, pouco depois disso, eles perderam contato.

Em dezembro de 2008, Elton participou de Spectacle, o programa de variedades musicais conduzido por Elvis Costello, em que ele discorreu longamente sobre Russell, que não via e com quem não tinha falado havia 38 anos. Um mês depois, teve a ideia de voltar a fazer música com seu herói, que mal estava conseguindo sobreviver. "Ele estava fazendo turnê só para colocar comida na mesa, tocando em lugares pequenos e perdendo o respeito próprio", diz Elton.

A dupla foi para um estúdio em Los Angeles com o produtor T Bone Burnett e o parceiro de composição de Elton havia 44 anos, Bernie Taupin. The Union é a volta de Elton às suas raízes country e soul, e as letras de Taupin revisitam o imaginário do Oeste Selvagem de Tumbleweed Connection, o triunfo que criaram em 1970. Na última faixa de The Union, "In The Hands of Angels", Russell agradece Elton por fazer sua carreira reviver. "Eu pensei: O que posso dar para um sujeito que tem seis casas e dez vezes tudo?", diz Russell. "A única coisa que eu podia dar a ele era uma canção."

"No último terço da minha vida, quero fazer os álbuns que tiver vontade", diz Elton. Aos 63 anos, ele continua fazendo mais de cem shows por ano, além de cuidar de uma empresa de gerenciamento de artistas e de sua fundação contra a Aids, que já arrecadou mais de US$ 220 milhões desde 1992 e beneficia programas em 55 países.

Ao longo de quatro horas, Elton falou sobre The Union e os altos e baixos do superestrelato. Ele estava acomodado em um sofá em L que tinha por cima um quadro de Juang Yi Hi de um lado e, do outro, uma fotografia em papel brilhante de Steven Klein, de um modelo masculino usando sunga. Sir Elton senta sempre em postura perfeita de pianista.

Onde está o piano?
Não tenho nenhum aqui. Tenho pianos em Windsor e em Atlanta, mas não gosto muito de pianos. Eles medem quase três metros, ocupam muito espaço, e eu nunca toco. Ser pianista no palco é a maior frustração - é por isso que eu era tão acrobático no começo. Aprendi com Little Richard, Fats Domino e Jerry Lee Lewis como conseguir um pouco de atenção. Fats costumava empurrar o piano pelo palco com a barriga. Eu sempre quis ser alguém como Jimi Hendrix - dá para fazer um monte de coisas com uma guitarra. O que se pode fazer com um piano? Você pode enfeitá-lo, pular em cima ou se deitar em baixo.

No ano passado, você fez mais de 100 shows. Por que trabalha tanto?
Eu tenho amor incondicional pelo que eu faço. E, desde que fiquei sóbrio [em 1990], cada show é uma ocasião absolutamente prazerosa para mim. Não que não fosse prazeroso antes, mas eu posso descer do palco para a minha vida maravilhosa, com David na minha vida, e equilíbrio. E o público. Eu aprecio a plateia muito mais agora que consigo enxergar as pessoas. Eu fiz cirurgia corretiva nos olhos há oito anos, e agora consigo enxergar os rostos e os cartazes e os discos que as pessoas erguem. Dizem que os Stones estão velhos demais e deveriam parar. Quer dizer, você consegue imaginar chegar para Keith [Richards] e dizer: "Pare de tocar guitarra"? Alguém ia dizer isso a Muddy Waters? É tipo: "Vá se foder!" Eu faço 110, 120 shows por ano. Faço o show com banda, o show com Leon, o show com Billy Joel, o show solo de Elton, o show Elton/Ray Cooper, o show Elton/orquestra. No ano passado, eu toquei mais de 80 músicas diferentes. Eu nunca fico entediado. Sou agitado. Igual ao Jack White. Adoro gente assim. Ele sempre está fazendo alguma coisa. E Brandon Flowers, Elvis Costello e Dave Grohl. Nós deveríamos montar uma banda. Vamos nos chamar de Fidgets [agitados]. Eu vou tocar teclado.

Você leu a autobiografia de Keith Richards?
Não li. Parte de mim quer ler, mas outra parte faz parecer que isso só vai me levar de volta a coisas ligadas a drogas. Eu fiquei meio desestimulado quando soube da coisa do pênis de Mick [Jagger]. Sou um grande fã de Mick. Se eu falasse que Bernie Taupin é um filho da puta desgraçado e tem pau pequeno, ele provavelmente nunca mais iria falar comigo. Ele não é um filho da puta desgraçado e não tem pau pequeno - acho que não, nunca vi. É tipo: por que fazer isso? Principalmente com uma pessoa com quem você tem uma relação de trabalho.

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