segunda-feira, 2 de junho de 2008

EFÊMERA



Presenciei algo que me causou muita tristeza e uma dor congelada pelo silêncio. Um vizinho sofreu um ataque cardíaco e assisti a todo esforço que a equipe médica realizou tentando devolver-lhe a vida. Nem as drogas e nem os eletrochoques foram suficientes, falecendo após quarenta minutos de muita luta por parte do médico e enfermeiras.

Silêncio.

É no vazio que sempre ouvimos os pensamentos mais profundos da mente.

E vi o mundo com sua correria capitalista, onde poucos se preocupam com muitos, mas onde muitos contemplam apenas seus próprios espaços e mundos criados em volta de si mesmos. Vi a escassez do amor que faz não perceber aquele que está tão próximo e que torna o colega de trabalho em concorrente de todos os dias ou aquele vizinho que apesar de morar tão perto e de não o vê a todo tempo, opta por propagar apenas o que há de ruim nele.

Vi um mundo que separa as pessoas por mesquinharias: política, dinheiro, educação, religião, status... E a partir daí, quanto tempo se perde com invejas, iras, ciúmes, brigas, egoísmos, presunções... Quanto tempo se gasta falando do que o outro fez ou deixou de fazer, ou dos erros moralistas que cometeu. O desejo de atirar a pedra é tão obsessivo quanto o fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

E vi a mim em reboco de concreto. A fragilidade que percorre minhas veias, que compõe todos os meus sistemas biológicos e que me coloca definitivamente e exclusivamente a mercê da vontade de Deus. E se Ele desejar que eu vá hoje, como explicar a ajuda que não dei ou o amor que não senti? Como explicar o Evangelho que creio e o caminho que ainda não trilhei nele. Quão miserável homem me tornei! Quantas miserabilidades habitam minha carcaça que se corrói com o tempo!

E ainda acham que tudo que escrevo é porque me sinto melhor que alguém! Mas a instituição ou a organização grita mais alto que qualquer ato de verdade. E qualquer ato de verdade é loucura que se instaura na insanidade dos rebeldes aos quais se destinam ao inferno que criaram.
Há alguns dias atrás me perguntaram: “Então o que tenho que fazer para ter a salvação?” “Nada”, respondi. “Como nada. É impossível isso.” replicou. “Não se preocupe com a salvação, pois não pertence a nós este saber, mas sim o simples desejo de amar indiscriminadamente como Ele amou.” “Ah, pára. Só isso?” concluiu “Se acha fácil porque ainda não conseguiu?” perguntei. Sem ter como responder, a primeira pergunta retornou, bem como as mesmas respostas. Como explicar o que ninguém parece querer entender?

Então seguirei apenas falando, pois minha vida é efêmera e não sei onde estarei quando você terminar de ler este texto. A única certeza que deixo pela fé, é que qualquer uma destas palavras aqui podem ser usadas por Deus para dizer algo a você. De qualquer forma elas já falaram muito comigo.

No fim, acabamos por perceber que poderíamos ter feito mais do que fizemos ou que poderíamos ter sonhado mais do que nossos pensamentos nos limitavam.

Em reverência e silêncio

BH 02/06/2008

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