domingo, 25 de maio de 2008

CRISTO OU CAIFÁS?



Quando lembramos da crucificação de Cristo, algumas cenas nos vem a mente e, talvez, uma das mais marcantes é a escolha do povo por Barrabás, levando assim, aquele que tantos curou e ensinou a morrer crucificado. Mas porque o povo escolheu Barrabás? Talvez a resposta a esta pergunta encontra-se bem antes na figura de uma pessoa, muito das vezes, pouco comentada, mas de grande relevância no processo de crucificação de Jesus: o Sumo Sacerdote Caifás.

Sumo Sacerdote em Jerusalém por 18 anos (18 a 36 d.C.), Caifás não apenas presidiu o Sinédrio judeu na época de Jesus como participou da primeira perseguição aos cristãos descritos no livro de Atos 4:5-22.

A fim de esclarecer certos detalhes, o Sumo Sacerdote era o sacerdote principal ou chefe dos sacerdotes judeus. Depois da volta do cativeiro da Babilônia e, sobretudo, na época dos macabeus, quando a Judéia teve períodos de independência nacional, o Sumo Sacerdote exerceu a chefia política da nação junto com a direção religiosa. Quando a Palestina caiu sob a jurisdição romana, o Sumo Sacerdote viu de novo limitada a sua autoridade somente ao aspecto religioso. As suas funções estão estabelecidas nos livros de Êxodo e Levítico. Também era o presidente do Sinédrio nos tempos do NT. O Sinédrio era o tribunal supremo dos judeus, integrado pelos Sumo Sacerdotes (os que exerciam a função e os já retirados), os anciãos e os mestres da Lei (estes últimos geralmente fariseus). Totalizando 71 membros, incluindo o seu presidente, cargo que costumava exercer o Sumo Sacerdote em exercício. ¹

O que vemos ao longo dos Evangelhos é a preocupação extremada destes líderes religiosos para com os ensinamentos e as ações que Jesus realizava. Ou seja, a mensagem que Jesus ensinava mostrava as vísceras do sistema político-religioso da época colocando em xeque todo o poder e status adquiridos por estes líderes ao longo da história até aquele momento.

No capítulo 11 do livro João a partir do verso 47, vemos o ápice desta preocupação quando os “principais sacerdotes e os fariseus” convocam o Sinédrio e disparam a pergunta: “Que estamos fazendo, uma vez que este homem opera muitos sinais?” A popularidade de Jesus que aumentava exponencialmente proveniente de seus milagres e ensinamentos trouxe um problema aos quais sacerdotes e fariseus não esperavam: o temor de terem o controle que exerciam sobre o povo e a influência política abalados.

A partir dos versos 49 e 50, Caifás, o Sumo Sacerdote presidente do Sinédrio, dispara a idéia que melhor seria morrer um único homem para o “bem estar da nação” ao invés de “perecer toda a nação”. Note a hipocrisia quando tratam isso como um problema de segurança nacional ao invés de exporem isso como um ataque direto ao sistema religioso criado e desenvolvido por eles. E assim o verso 53 diz: “Desde aquele dia, resolveram matá-lo.”

No livro de Marcos, no capitulo 14 a partir do verso 53, Jesus é levado perante o Sinédrio para ser interrogado. Caifás rasga suas vestes quando Jesus responde afirmativamente a sua pergunta dizendo ser Ele o Filho de Deus.

Contemple esta cena: Num lugar cheio de fariseus, sacerdotes e anciãos, ou seja, a nata dos doutores da Lei, onde buscam algo para incriminar a Cristo, ou seja, algo que estivesse em desconformidade com a religião ao qual ensinavam, Jesus se revela, ou seja, revela aquilo que colocaria um fim ao poder/status conseguido por anos por estes líderes. Assim a humilhação e a violência são aplicadas com o simples propósito de tentar conter a revolução ao qual Cristo já iniciara.

Quando Jesus é levado a Pilatos pelo Sinédrio a questão levantada por estes líderes é política e não mais religiosa: “este homem diz ser o Rei dos Judeus”, a fim de conseguirem matá-lo de uma forma legal, uma vez que o rei da região era César, o qual todos tinham a obrigação de respeitá-lo e obedecê-lo.

No capítulo 19 do livro de João, diante de uma multidão já cega pela influência de seus líderes religiosos; Pilatos ouve no verso 15 dos principais sacerdotes: “Não temos rei, senão a César!” Assim Jesus é levado para a crucificação. Pouco antes disso o povo gritou para que se soltasse Barrabás.

Mas afinal de contas, porque Barrabás? Porque mesmo sendo um ladrão, Barrabás não oferecia perigo algum para o Sumo Sacerdote e seu Sinédrio. Assim libertar um ladrão se tornou moralmente correto diante do risco de terem seus poderes religiosos-políticos ameaçados.

Nos dias atuais a massa continua sendo manipulada pelos vários Sinédrios existentes dentro dos vários sub-sistemas religiosos. Assim vários “Barrabáses” são soltos diante do apelo proporcionado por vários Sumo Sacerdotes atuais. E não basta muito para encontrar estes exemplos. Basta abrir os jornais ou assistir a algum noticiário na TV.

Quando algum movimento surge com uma mensagem que poderia tirar deles a condição de líderes/manipuladores ou afetarem substancialmente seus cofres bancários, então é hora de levarem o povo a optarem por Barrabás, levando a muitos a ensurdecerem para a mensagem do Evangelho da Graça de Jesus.

Assim a escolha não consistia entre Cristo e Barrabás, mas entre Cristo e Caifás, entre Cristo e o aparato religioso, entre Cristo e os padrões moralista-religiosos existentes.

E a escolha dos judeus à época não foi diferente das escolhas que muitos fizeram e fazem ao longo dos tempos. A única diferença é que a religião, depois daquela época, adotou a marca JESUS para inserir na mente de muitos o que cria, ensina e fundamenta como verdade absoluta, quando na realidade apenas levam mais pessoas a caminharem distantes da mensagem de Jesus.

No entanto, a escolha continua sendo pessoal e intransferível: Cristo ou Caifás?

¹ Fonte: Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada

BH 25/05/2008

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