sexta-feira, 10 de junho de 2011

Os 80 anos do gênio excêntrico

Genial, mítico, excêntrico, obsessivo, perfeccionista, todos esses adjetivos cabem, com maior ou menor justeza, na personalidade do baiano João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, ou simplesmente João Gilberto. Criador da batida da bossa nova, o gênero mais influente, em âmbito planetário, produzido pela MPB no século XX, ele completa, hoje, 80 anos. Mantendo a rotina de reclusão, com uma agenda bissexta de shows e há mais de dez anos sem lançar um álbum de estúdio, João se mantém, ainda assim, uma referência incontornável para músicos e diletantes das mais diversas latitudes.

Márcio Menescal, um dos integrantes do Bossacucanova, que trafega pela seara da eletrônica, diz que é João - e o ritmo que ele tornou célebre - o substrato de tudo o que faz em música. "Por mais que a gente trabalhe com base nas programações eletrônicas, a essência é a bossa tradicional mesmo", diz, considerando que o suingue e a riqueza do ritmo estão sintetizados em duas pessoas: seu pai, Roberto Menescal, e João Gilberto. "Eles conseguiram tirar de uma batida muito simples um balanço incrível", completa.


Ele recorda que, nascido num ambiente impregnado de bossa nova, ouviu João pela primeira vez antes da adolescência, com 11 ou 12 anos. "Meu pai era diretor de gravadora, a Polygram, então eu tive acesso muito rápido a tudo. Naquela época, eu gostava era de rock, estava interessado em Kiss, Led Zeppelin, mas quando ouvi o ‘Chega de Saudade’, ele me agradou por inteiro logo de cara", diz. Ele destaca que o próximo disco do Bossacucanova, previsto ainda para este ano, traz, entre as faixas, "É Preciso Perdoar", do repertório de João. "É uma música que está um pouco esquecida, mas é linda, um clássico. O João tem o dom de eternizar algumas músicas", diz.

De uma geração anterior à de Márcio, o violonista e compositor Juarez Moreira - que já gravou, ao lado de Ithamara Koorax um álbum dedicado às composições de João, chamado "Bim Bom" - diz que a música do baiano determinou sua carreira. "Posso dizer que toco violão praticamente por causa dele, é das maiores referências que tenho", afirma, destacando as inúmeras matizes que o aniversariante do dia conseguiu imprimir ao seu instrumento. "O violão dele é exemplar, reúne todos os elementos da música brasileira e, ainda assim, é samba mesmo, puro. O termo bossa nova é uma licença poética. As poucas notas, as pausas, isso tudo é uma grande sacada, a forma como ele distribui os espaços musicais, os contrapontos entre silêncios e acordes, é tudo muito rico", observa.

Contemporâneo de João, o músico e produtor Pacífico Mascarenhas - um dos principais responsáveis por introduzir a bossa nova em Minas Gerais - conviveu com ele durante um certo período, em Diamantina, onde o baiano morou em meados da década de 50, antes do sucesso de "Chega de Saudade", e também no Rio de Janeiro. Mais do que do talento incipiente, que viria a conquistar o mundo, Pacífico se recorda das idiossincrasias de João. "Uma vez, já no Rio de Janeiro, estávamos indo para a gravadora Odeon, o João viu o Carlos Drummond de Andrade na rua, o chamou e pediu um autógrafo num jornal que levava embaixo do braço. Drummond foi lá, deu o autógrafo, mas o João, no primeiro lugar que parou depois, abandonou o jornal", lembra. "De outra vez, fui buscá-lo no hotel Normandy, para um show que ele faria no Iate Clube, aqui em Belo Horizonte. Já estávamos atrasados quando cheguei no hotel, mas ele ainda entrou no banheiro e ficou lá umas duas horas", emenda.

Mesmo para quem alardeia aos quatro ventos não gostar da música de João, a data de hoje é digna de nota. "Eu acho o João Gilberto uma figura muito querida, ele sempre foi muito carinhoso comigo, então eu tenho mais é que dar parabéns para ele. Chegou aí, aos 80, ativo, tocando", diz Lobão, de quem o baiano gravou a música "Me Chama". Lobão não hesitou em dizer, à época, que não tinha gostado.

Em Juazeiro (BA), cidade natal de João, o aniversário do filho ilustre será lembrado com uma missa musical na catedral da cidade, shows de artistas locais e uma apresentação de João Bosco hoje à noite. Outra homenagem - esta vindoura - é um livro que está sendo preparado pelo professor, músico e escritor Wander Conceição, focado no período que João passou em Diamantina.

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