quarta-feira, 15 de junho de 2011

Descaminhos da Sexualidade

Como uma visita a um museu do erotismo onde estão expostos 500 anos de mudanças comportamentais dos brasileiros, a historiadora Mary del Priore organiza seu livro "Histórias Íntimas - Sexualidade e Erotismo na História do Brasil", sobre o qual debate hoje, no Sempre um Papo, às 19h30.

Mary se identifica à linhagem de pensamento de Gilberto Freire, Darcy Ribeiro e Roberto Da Matta e se afasta das teses acadêmicas para dialogar diretamente com o grande público. "Não há capítulos grandes no livro. Minha ideia foi criar pequenos quadros, como se realmente se estivesse vendo diferentes telas", diz.

As páginas - ou "telas" - depõem sobre o peso da mentalidade patriarcal e as novidades de higienização e de tecnologia que, ao longo dos séculos, afetaram o modo como o povo experiencia o pudor, a nudez, as relações sexuais e as transgressões.


Por esse caminho, uma das constatações centrais que a historiadora sustenta é de que "o brasileiro tem duas caras". "Na vida privada, ele cultiva o machismo, o racismo e a homofobia, enquanto na vida pública diz que topa tudo", resume ela.

Como exemplo, Mary recorre à realidade mineira da década de 1980, quando a pílula anticoncepcional chegava ao Brasil abrindo para a mulher oportunidades de controlar a família e ingressar no mercado profissional. "Na época, acontecem os maiores crimes contra a mulher. Em Minas, houve o assassinato de Angela Diniz. E (outro caso em que) um homem crivou a mulher de balas, a esquartejou e jogou na lagoa da Pampulha porque ela começou a ver o seriado Malu Mulher, a fumar e a usar biquini", diz.

"Sempre que temos aquilo que é considerado um passo à frente ou adesão a modismos do exterior, encontramos, aqui, uma forma de resistência", conclui.

Sujo. A historiadora observa também o impacto da falta de higiene sobre os costumes locais até o século XIX. "As relações sexuais eram muito rápidas, despojadas de erotismo. As mulheres suspendiam as saias e os homens abaixavam as calças", explica. Só a água encanada e o desenvolvimento cosmético mudariam isso.

Outro dado histórico no mínimo curioso que o livro divulga diz respeito à falta de privacidade nas casas onde viviam grandes famílias e seus empregados ou escravos. "As portas não tinham ferrolhos e havia frestas nas paredes. O lugar desse sexo rápido era fora, na beira do rio, no matinho, no quintal. A casa só vai se tornar santuário da sexualidade burguesa no final do século XIX, com os santos vigiando para que o sexo fosse feito da forma mais contida e valorizando o pudor da mulher".

Além das relações heterossexuais dentro e fora do casamento, Mary registra a tradição homossexual na história do país. "Quero convidar o leitor a uma leitura crítica do Brasi[/NORMAL_A]l. O compromisso maior do livro, no atual estado da questão, é discutir o horror de sermos a oitava economia do mundo e estarmos batendo em homossexuais".







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